Karoline Barreto / Neurocientista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com experiência em projetos inovadores envolvendo monitoramento neural na saúde mental.
O futuro da saúde mental depende da sinergia entre tecnologia e cuidado humano.
Em 2025, mais de 12 milhões de brasileiros recorrem à inteligência artificial (IA) em busca de suporte emocional, sendo 6 milhões vias ChatGPT. Esse crescimento é impulsionado pela disponibilidade 24h, custos mais baixos e falhas do SUS em oferecer continuidade no atendimento psicológico.
No entanto, a IA não compreende genuinamente o sofrimento humano. Pesquisas mostram falhas em lidar com ideação suicida e psicose, além do risco de dependência emocional. O Conselho Federal de Psicologia já estuda diretrizes diante de dilemas éticos, diagnósticos imprecisos e ausência de responsabilidade legal.
Do ponto de vista neurocientífico, as interações com IA ativam o sistema dopaminérgico de recompensa, ligado ao estriado ventral e ao córtex pré-frontal, áreas que modulam motivação e expectativa. Isso explica a satisfação imediata, mas também a vulnerabilidade a hábitos compulsivos. Estudos recentes mostram que a dopamina não atua apenas no prazer, mas também na antecipação da recompensa, reforçando o engajamento com sistemas digitais.
Já a empatia verdadeira envolve circuitos complexos que a IA não consegue replicar: a amígdala processa a carga emocional, o córtex pré-frontal medial integra julgamentos sociais, e a ínsula anterior permite reconhecer e ressoar com a dor alheia. Além disso, o giro do cíngulo contribui para a regulação emocional em situações de sofrimento. Esses mecanismos, fundamentais na psicoterapia, são ativados apenas na interação humana.
Avanços recentes, como IA multimodal capaz de detectar emoções ou sistemas neurais de monitoramento da amígdala, mostram o potencial da tecnologia. Mas ainda não há substituto para a escuta profissional, que interpreta silêncio, fala e gestos, oferecendo protocolos seguros em crises.
Assim, a IA pode ser uma aliada no acompanhamento — registrando sentimentos entre sessões ou reforçando técnicas —, mas o cuidado humano segue insubstituível para mudanças emocionais profundas, pois ativa redes cerebrais de empatia e vínculo que nenhum algoritmo reproduz.

























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