A médica Eliana Lopes Pires, especialista em clínica médica e em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) faz um alerta: ataques cardíacos têm atingido pessoas cada vez mais jovens, impulsionados por novos hábitos de vida e fatores de risco precoces.
A morte do influenciador Henrique Maderite, vítima de infarto agudo do miocárdio, trouxe novamente à tona uma preocupação crescente entre especialistas: o aumento de eventos cardíacos graves em pessoas jovens. O caso chama ainda mais atenção por se tratar de alguém ativo — ele era esportista, andava de bicicleta e frequentava a academia diariamente. Situações como essa reforçam que o infarto já não está restrito a perfis sedentários ou mais velhos. No caso do influencer, foi uma exceção pelo modo de vida saudável e pelos cuidados com a saúde que ele mantinha.
A cardiologista Eliana Lopes Pires, médica formada pela UFMG e especialista em clínica médica pela Fundação Hospitalar de Minas Gerais (FHEMIG) e em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), afirma que os números já chamam a atenção da comunidade científica. Segundo ela, registros hospitalares indicam uma mudança no perfil dos pacientes.
“Dados recentes da Associação Brasileira de Cardiologia confirmam um aumento significativo do número de óbitos em jovens com menos de 40 anos. Esses dados estão embasados principalmente por registros de hospitais públicos, onde foi constatado um aumento de cerca de 180% nos atendimentos de pacientes nessa faixa etária”, explica Dra. Eliana Lopes Pires.
Estudos científicos discutidos pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e pesquisas indexadas na plataforma científica PubMed também apontam para uma mudança no perfil epidemiológico do infarto. Nas últimas décadas, a mortalidade cardiovascular caiu entre pessoas mais velhas graças a avanços no tratamento e ao melhor controle de fatores de risco. Entre os jovens, porém, essa redução não ocorre na mesma velocidade — e em alguns recortes populacionais há estabilização ou até crescimento proporcional dos casos.
Mudança no estilo de vida
Segundo Eliana Lopes Pires, uma das explicações para esse fenômeno está no aumento da exposição precoce aos fatores clássicos de risco cardiovascular: “A principal mudança no perfil de risco cardiovascular nos jovens é o aumento da exposição a fatores que antes não eram tão habituais nessa faixa etária. Isso tem alterado o perfil da aterosclerose e aumentado os índices de obesidade e doenças cardiovasculares associadas”, afirma.
Mesmo com o aumento da conscientização sobre saúde e a maior adesão à prática de esportes, isso não tem sido suficiente para compensar os efeitos de uma rotina cada vez mais sedentária. A facilidade de transporte, a substituição de atividades físicas por comodidades do dia a dia e o tempo prolongado em frente a telas reduzem significativamente o gasto energético cotidiano. Assim, mesmo indivíduos que se exercitam regularmente podem passar a maior parte do dia inativos. Como consequência, observa-se o crescimento da obesidade, do diabetes tipo 2, da hipertensão arterial e da dislipidemia — condições diretamente associadas ao maior risco cardiovascular entre jovens adultos.
Outro ponto de atenção envolve hábitos que se tornaram mais comuns entre jovens com idade de 30 anos, como o uso de anabolizantes, drogas ilícitas e o consumo excessivo de bebidas energéticas.
“Anabolizantes podem causar alterações estruturais e funcionais no sistema cardiovascular. Já os energéticos, com altas concentrações de cafeína e outros estimulantes, quando consumidos acima do limite recomendado podem provocar aumento da pressão arterial, arritmias e sobrecarga do coração”, explica a cardiologista.
Embora o estilo de vida tenha grande influência, fatores genéticos também continuam desempenhando papel importante no risco cardiovascular.
“O histórico familiar tem peso em qualquer faixa etária, principalmente quando existe óbito de um dos progenitores com idade inferior a 60 anos. Nesse caso, o fator genético se torna um elemento importante no desenvolvimento das doenças cardiovasculares”, destaca a Dra. Eliana.
De acordo com a especialista, os sintomas do infarto em jovens costumam ser semelhantes aos observados em pacientes mais velhos. Entre eles, estão dor no peito que pode irradiar para o braço ou mandíbula, sensação de falta de ar, opressão torácica e arritmias.
“Nos pacientes mais jovens a gravidade pode ser maior porque não houve tempo para formação de circulação colateral, que às vezes ocorre em pacientes mais velhos. Além disso, pode haver atraso no diagnóstico porque o próprio paciente subestima os sintomas e, em alguns casos, o profissional de saúde considera outras hipóteses, inicialmente, menos graves, devido à idade”, afirma.
Essa combinação pode retardar o atendimento médico — um fator crítico em eventos cardiovasculares agudos.
Assim, a prevenção precoce se torna a melhor estratégia.
A cardiologia moderna tem reforçado a importância da avaliação precoce do risco cardiovascular, mesmo antes dos 40 anos, especialmente em pessoas com histórico familiar de infarto.
Segundo a Dra. Eliana Lopes Pires, exames simples podem ajudar na investigação inicial, como o eletrocardiograma, embora ele apresente limitações: “O eletrocardiograma faz parte da consulta e tem alta especificidade, mas baixa sensibilidade. Se o paciente não estiver com sintomas no momento do exame, ele pode estar normal”, explica.
Outros exames podem ser indicados conforme cada caso, como ecocardiograma, que avalia a função e a anatomia do coração, teste ergométrico, cintilografia miocárdica, angiotomografia de coronárias com score de cálcio, ressonância magnética cardíaca e, quando necessário, cateterismo.
Para a cardiologista, as campanhas públicas de saúde também precisam acompanhar essa mudança de perfil da doença: “É fundamental intensificar o alerta sobre o aumento de infarto em pessoas jovens, tanto para a população quanto para os profissionais de saúde em formação, além de reforçar campanhas de incentivo a hábitos saudáveis”, diz.
Vapes, cigarro e novos riscos
Outro fator que preocupa especialistas é o crescimento do consumo de produtos derivados do tabaco entre jovens, especialmente com a popularização dos cigarros eletrônicos.
No Brasil, cerca de 8,7% dos adolescentes entre 13 e 17 anos já utilizam cigarros eletrônicos, o equivalente a aproximadamente um em cada nove jovens, segundo dados do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com base na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE).
O fenômeno ocorre paralelamente a uma reversão na tendência histórica de queda do tabagismo. Em 2023, o país registrou 11,6% de adultos fumantes, primeiro aumento em cerca de duas décadas, de acordo com o sistema Vigitel, coordenado pelo Ministério da Saúde. Do ponto de vista cardiovascular, tanto o cigarro convencional quanto o eletrônico representam riscos importantes.
“A nicotina e outros derivados presente nesses produtos estimula o sistema nervoso simpático, elevando a frequência cardíaca e a pressão arterial. Além disso, provoca inflamação e danos ao endotélio, que é a camada interna dos vasos sanguíneos, favorecendo o desenvolvimento da aterosclerose e aumentando o risco de infarto, conjuntamente a lesão pulmonar” explica Eliana.
No caso dos vapes, estudos também apontam a presença de partículas ultrafinas, metais e compostos tóxicos no aerossol inalado, capazes de provocar estresse oxidativo e prejuízos à função vascular. Para especialistas, o recado é claro: o coração jovem não é invulnerável. Informação, diagnóstico precoce e mudanças no estilo de vida são hoje ferramentas essenciais para evitar que os casos entre os mais jovens se tornem cada vez mais frequentes.


























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