Para o professor e pesquisador Adriano Gianturco, a densidade, quando planejada, gera benefícios econômicos, sociais e ambientais. “Podemos crescer de forma mais densa, mais inteligente e mais sustentável,” afirma ele.
O professor e pesquisador Adriano Gianturco explica que um estudo do Centro para Cidades do Reino Unido, citado em suas pesquisas, mostra que pessoas que vivem fora das cidades são responsáveis por 50% mais emissões de carbono do que aquelas que vivem em áreas densas. “Mais densidade significa menos carros, mais transporte coletivo, mais bicicletas e patinetes, menores custos para infraestrutura (ruas, água, gás, eletricidade, internet) e mais espaço para o verde”, enfatiza o professor e pesquisador Adriano Gianturco.
Gianturco lembra que as cidades das Américas foram planejadas depois da invenção do automóvel, o que gerou um modelo conhecido como rodoviarismo — cidades projetadas para carros e não para pessoas. “Brasília é o exemplo máximo dessa lógica: uma com uma série de erros graves, do ponto de vista urbanístico, feita para automóveis. O mesmo ocorreu com Belo Horizonte, que se afastou de sua origem histórica. Ouro Preto era para ter continuado sendo o núcleo urbano central. Mas criamos uma capital artificial, no meio do nada, desenhada para carros. Agora precisamos reumanizar as cidades.”
“O espaço urbano pertence ao cidadão”
No caso do Vetor Sul de BH, ele vê uma oportunidade única: “É uma região que ainda tem espaço para crescer. O que proponho não é conter a expansão, mas qualificá-la. Podemos crescer de forma mais densa, mais inteligente e mais sustentável.”
Adriano Gianturco argumenta que o momento é estratégico: “A retirada temporária do coeficiente de construção pode ser uma pausa necessária para repensar o modelo e redirecionar o uso do solo. Densidade não é só construir mais, é construir melhor — com diversidade de usos, calçadas de qualidade, transporte eficiente e espaços públicos que incentivem o convívio.”
Os dados do Cedeplar/UFMG (2019) mostram que o Vetor Sul passou de 139 mil habitantes em 2010 para 157 mil em 2017, e deve ultrapassar 180 mil moradores em 2025, seguindo o ritmo de valorização imobiliária e expansão demográfica. “A questão central”, explica, “é como acomodar essas pessoas de modo que tenham acesso a moradia, comércio, lazer e trabalho sem depender do carro. Esse é o desafio e a oportunidade do novo urbanismo,” afirma Adriano Gianturco.
O professor Gianturco reforça que o formato urbano impacta diretamente a saúde da população. Estudos citados por ele mostram que a forma como as cidades são estruturadas pode influenciar o índice de obesidade tanto quanto — ou até mais do que — a própria alimentação. “Em Nova York, por exemplo, a taxa de obesidade é metade da média nacional americana. Mas em Manhattan, onde há densidade, calçadas e transporte público eficiente, o índice é 400% menor. Isso revela que, mesmo com hábitos alimentares semelhantes, o desenho urbano muda o comportamento humano”, destaca. Para ele, o urbanismo pode ser uma política pública de saúde, estimulando o movimento cotidiano e combatendo o sedentarismo.
Nesse contexto, a densidade deixa de ser um dado demográfico e se torna um princípio ético e político. “O futuro das cidades está na retomada da escala humana. É o retorno à cidade feita para as pessoas, onde caminhar é possível, o encontro é natural e o espaço urbano pertence ao cidadão, não ao carro”, conclui Gianturco.
O Vetor Sul, com seus bairros modernos e infraestrutura robusta, é visto por ele como um laboratório vivo da nova urbanidade mineira. “É onde o crescimento econômico, a tecnologia e a sustentabilidade se encontram. Mas, para consolidar esse futuro, precisamos abandonar a lógica do espraiamento e do muro alto, e apostar em uma cidade compacta, diversa e integrada.”
Urbanismo que une liberdade e responsabilidade
Com seu olhar multidisciplinar e trajetória internacional, Adriano Gianturco defende um urbanismo que una liberdade e responsabilidade, onde o adensamento urbano seja sinônimo de eficiência, vitalidade e bem-estar coletivo. “A cidade do futuro não é a que tem mais prédios, mas a que tem mais vida entre eles”, provoca.
Além disso, o especialista mostrou que o aumento da densidade urbana apresenta impactos mensuráveis sobre a redução de emissões e o consumo energético. Em um trabalho apresentado no Encontro da ANPEC (2024), há referência a estudos de Glæser & Kahn (2010) que demonstram que maior densidade tende a reduzir emissões de CO2, e cita Lee & Lee (2014), que analisaram dados dos Estados Unidos e constataram que dobrar a densidade ponderada pela população está associado a uma redução de 48% nas emissões de CO2 provenientes de viagens domésticas e 35% no consumo de energia residencial. O estudo da ANPEC também discute o efeito da densidade urbana sobre as emissões de gases de efeito estufa com base em literatura empírica e modelos econômicos de cidades compactas, reforçando o papel do adensamento como instrumento de sustentabilidade ambiental.
E é justamente entre as montanhas do Vetor Sul, onde o sol se põe sobre uma nova paisagem urbana, que essa visão começa a se materializar — não apenas como um discurso inspirador, mas como um projeto concreto de sustentabilidade, mobilidade e humanidade para o futuro de Minas Gerais.
Em países europeus e do norte global, a densidade urbana é associada à eficiência, qualidade de vida e sustentabilidade — o oposto do que muitos brasileiros ainda imaginam. Copenhague, Amsterdã, Paris, Milão, Turim, Hamburgo e Estocolmo mostram que cidades compactas podem ser verdes, acessíveis e vibrantes. Com planejamento urbano inteligente, elas oferecem transporte público eficiente, mobilidade ativa, requalificação de áreas degradadas e convivência equilibrada entre natureza e urbanização. “A cidade densa não é sinônimo de favelização, mas de acesso, mobilidade e sustentabilidade”, resume Gianturco.

























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