Juliana Mendes Vasconcelos / Bióloga / Ma. em Ciências e Tecnologias para o Desenvolvimento Sustentável / Colaboradora da Promutuca / www.promutuca.com.br • adm.promutuca@gmail.com
As mudanças climáticas deixaram de ser um futuro distante para se tornarem uma realidade cotidiana. Ondas de calor, enchentes e escassez de água já afetam milhões de pessoas no planeta, e o Brasil não está imune a esses impactos. No entanto, essas transformações não são sentidas de forma igual. É nesse ponto que se evidencia o que chamamos de racismo ambiental, fenômeno que escancara a relação direta entre crise climática e desigualdade social, em especial com as populações negras, indígenas e periféricas.
Esse tema, inclusive, tem sido uma das apostas para a redação do ENEM, dada sua relevância para compreender os desafios socioambientais do século XXI. O Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) é a principal forma de avaliação educacional do Brasil. Ele avalia o desempenho dos estudantes ao final da educação básica, serve como porta de entrada para o ensino superior por meio do Sisu, Prouni e Fies, e além disso, cumpre um papel fundamental na formação crítica dos jovens. Esse ano, as provas aplicadas nos dias 9 e 16 de novembro, poderão abordar diversos temas ambientais. Assuntos como urbanização, recursos hídricos, poluição plástica e justiça socioambiental não serão apenas “conteúdo”, mas potenciais assuntos e questões de prova, incluídos no portfólio interdisciplinar que o ENEM adota para avaliar competências de leitura, análise e proposição. Dessa forma, vale a reflexão de alguns desses temas.
Desigualdade ambiental
Nos últimos anos, o Brasil tem sido palco de eventos climáticos extremos que escancaram a desigualdade ambiental. No contexto brasileiro, a urbanização não planejada empurrou populações negras e periféricas para áreas de risco, como encostas, margens de rios e regiões sem saneamento básico. Essas comunidades são as mais afetadas por enchentes, deslizamentos e pela falta de acesso à água potável. A gestão desigual dos recursos hídricos e a ausência de políticas públicas eficazes são expressões do racismo ambiental, que se manifesta na forma como determinados grupos sociais são mais expostos aos impactos da degradação ambiental. A poluição plástica também agrava essa realidade. O acúmulo de resíduos nas periferias e nos cursos d’água urbanos bloqueia sistemas de drenagem, provoca alagamentos e compromete a saúde pública, enquanto as iniciativas de reciclagem e consumo sustentável permanecem concentradas em áreas de maior renda. Esse desequilíbrio mostra que a crise ambiental é, acima de tudo, uma crise de justiça social. E essa diferença comprova que o impacto ambiental tem cor e classe.
Reconhecer o racismo ambiental e compreender suas causas é essencial para pensar soluções que unam sustentabilidade e equidade. Não é possível combater a crise climática sem enfrentar as desigualdades estruturais que determinam quem sofre mais com seus efeitos. Portanto, a justiça climática deve ser entendida como um compromisso coletivo, que depende da ação política, da ciência e da educação. Ao incluir esses debates em suas provas, o ENEM cumpre um papel transformador de formar cidadãos capazes de pensar criticamente e agir de forma responsável diante dos desafios do meio ambiente.
Refletir sobre o meio ambiente, a desigualdade e a responsabilidade humana não é apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade urgente. E trazer essas discussões para o centro da educação, reafirma que a formação para o futuro começa com a consciência ambiental e social no presente, não apenas medindo o conhecimento, mas contribuindo também para a reflexão da necessidade de cidadãos conscientes, éticos e socialmente engajados com o futuro do país e do planeta.

























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