“Mais da metade dos estudantes brasileiros apresentou pensamento criativo abaixo da média mundial, aponta o Pisa. “É preciso investir e capacitar professores em estratégias de pensamento divergente, reduzindo o ensino excessivamente conteudista e ampliando espaço para exploração”, alerta o professor e especialista Fábio Veras.
Em um mundo marcado por mudanças cada vez mais aceleradas, desenvolver desde cedo a capacidade de adaptação e encontrar soluções criativas para as necessidades contemporâneas, tornou-se essencial no século XXI. Segundo especialistas, para alcançar esse objetivo, é fundamental estimular o pensamento criativo. A habilidade é fundamental para criar uma geração de pessoas capazes de resolver problemas de forma inovadora. A competência foi tema de um estudo divulgado em 2024, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico [OCDE]. O resultado, no entanto, acendeu um alerta no Brasil. Segundo avaliação realizada pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), em 2022, mais da metade dos adolescentes de 15 anos no país tem dificuldade de “pensar fora da caixa” e desenvolver soluções criativas.
O teste avaliou o pensamento criativo de estudantes de 56 países. O Brasil atingiu uma das menores notas do ranking, com 23 pontos, abaixo da média internacional registrada, de 33 pontos. Ocupando a 44ª posição, ele ficou atrás de nações como Jamaica, Colômbia e Peru.
Reflexo de um conjunto de fatores
Para o presidente do Sindicato das Indústrias de Software e Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais (Sindinfor), membro titular do Conselho Nacional de Proteção de Dados Pessoais e da Privacidade e professor, Fábio Veras, o baixo desempenho brasileiro é um reflexo de um conjunto de fatores. Em sua avaliação, o principal deles consiste na atual pedagogia aplicada nas escolas, que prioriza a memorização em vez do pensamento crítico. “A virtude é que não se trata de uma deficiência individual das nossas crianças e adolescentes, mas de um modelo educacional ainda excessivamente orientado à memorização e pouco estruturado para estimular imaginação, experimentação e resolução de problemas reais”, pontua.
Outro ponto destacado por Fábio Veras é a própria formação docente, que não prepara os educadores para estimularem o pensamento divergente. “É preciso investir e capacitar professores em estratégias de pensamento divergente, reduzindo o ensino excessivamente conteudista e ampliando espaço para exploração. Quando o educador é treinado para fazer perguntas abertas, a sala de aula se transforma em um laboratório criativo”, ressalta.
Mudanças
Do outro lado da lista, Singapura liderou o ranking com 41 pontos, seguido pela Coreia do Sul e pelo Canadá, ambos com 38. Para alcançar resultados como esses, segundo Fábio Veras, é fundamental conhecer e replicar as melhores metodologias. E não é preciso ir tão longe. Escolas no Brasil têm se tornado modelos em práticas pedagógicas, inclusive instituições públicas. “Sobral, no Estado do Ceará, é um caso de sucesso, assim como Recife, que oferece formação tecnológica aos alunos”, conta o presidente do Sindinfor.
Para Fábio Veras, alcançar esses resultados passa por iniciativas que começam nos próprios municípios. Segundo ele, enriquecer os currículos escolares com atividades que estimulam a imaginação é um ponto de partida. “Fortalecer a música, o teatro, as artes visuais e a contação de histórias como eixo estruturante, não como disciplina acessória. Estas são algumas das ferramentas que podem ser usadas para ampliar o olhar do aluno sobre o que está sendo ensinado na sala de aula”, ressaltou Veras.
“Capacidade humana de imaginar antes de realizar”
Em Nova Lima, outra instituição também é referência no desenvolvimento de habilidades. Reconhecido pela sua filosofia de ampliar o conhecimento humano para além do conhecimento acadêmico, o Colégio Santo Agostinho estimula em seus alunos a criatividade como uma ferramenta de inovação. “Temos esta preocupação em nossas práticas educativas e sempre estamos nos reinventando, cientes de que a criatividade não é algo isolado, ela nasce do conhecimento, da curiosidade e do desejo de transformar a realidade. O acesso à cultura, à leitura, às experiências artísticas e a diferentes vivências transforma a vida de um estudante”, diz a supervisora pedagógica da instituição, Cristiane Lopes.
Exemplos práticos de como os municípios podem levar essa experiência para todas as escolas, não faltam. Teatro sobre exploração espacial, produção musical inspirada no universo e até oficinas de construção de foguetes experimentais com materiais recicláveis, são algumas das ações que Fábio Veras já apresentou a diversos municípios como forma de estimular o pensamento criativo. “Sonho e ciência não são opostos, mas sim complementares. Grandes saltos tecnológicos nasceram da capacidade humana de imaginar antes de realizar”, destaca.
O estímulo à leitura é um capítulo à parte para essa mudança. Na visão de Fábio Veras, o município deve formular um plano para desenvolver o hábito logo nos primeiros anos. Segundo ele, a criatividade é uma política industrial de longo prazo, capaz de formar cientistas e pessoas com alta capacidade de gerar soluções. “O município que forma jovens capazes de imaginar soluções próprias gera empregadores, e não apenas empregados”, destaca. “Hoje você não atrai empresas com terrenos, mas com um cluster de talentos”, afirma.
Por fim, Fábio Veras ressalta: “Em um contexto global no qual criatividade deixou de ser atributo periférico e passou a ser competência central para inovação, ciência, tecnologia e empregabilidade, o resultado exige uma reflexão estratégica. E falo isso como pai e como presidente do Sindinfor. Não se trata de uma deficiência individual das nossas crianças e adolescentes, mas de um modelo educacional ainda excessivamente orientado à memorização e pouco estruturado para estimular imaginação, experimentação e resolução de problemas reais. É possível transformar este estudo em uma agenda concreta de política pública”, declarou.


























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